sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Partida.


            Minha voz trêmula percorria ávida as linhas de um papel de notas todo amassado que guardara para a ocasião. Tamanha fora a expectativa para a chegada do momento que mal pude perceber o ambiente ao redor. Talvez por isso só dei-me conta do ocorrido algum tempo depois.
         Tomei-me de um nervoso redemoinho de sensações desagradáveis (e sem dúvida meu busto avermelhou-se sobremaneira que acabou por delatar minha pseudo-determinação - não seria fácil, e não foi).
            As palavras foram correndo mais rápidas do que esperadas, mas não passaram de cinco ou seis. O corte veio enfático. “O que você está querendo dizer?” Antes que pudesse soltar algumas explicações, fui cortada novamente, dessa vez por um tom de voz um tanto quanto maior do que o necessário. A vermelhidão apossou-se também delas. Tentavam (e conseguiam, para a maioria dos presentes) simular indignação e certeza. Suspiravam rapidamente para tomar fôlego e prosseguiam as injustiças verbais, as quais todos puderam presenciar e ouvir.
           Tomei-me de um susto quando percebi que, na verdade, mal conseguira terminar minha primeira anotação do total de quatro que tanto treinara na noite anterior com meu travesseiro.
       As entonações e expressões que ali percebia contradiziam toda minha natureza, minha calmaria. Inspirava silêncio, expirava decepções. Mal dava tempo de tentar falar. Não me era permitido.
            Um dos presentes optou por levantar-se e sair. Claro, não ficaria em um local tão tumultuado e desprovido de respeito para com suas palavras. E como todo faltante, sobrou para ele as diversas incoerências. Mas dessas não me contive.
            Em picados, em cortados, moídos, as palavras foram proferidas por mim. A saída já era prevista, mas precisava ser esclarecida e totalmente justificada. Acabou-se o suspense, já visualizava o quebra-cabeça como um todo, as ações tomadas no decorrer de um longo ano.
            Lutei comigo mesma para entender o porquê de admirar (e querer bem) alguém que nos disse tantas palavras rudes, impropérios que rasgaram qualquer vestígio de sentimento bom. Ao final, não ganhei nem perdi. Vivi mais uma decepção. Que só deu as caras por tamanha expectativa posta. E deposta.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Mudança, mundo.

Dar início ao ano abordando o conceito de mudança tem um quê de simbólico, não acham?
Pois eu acho.

Sempre disse que viajar muda as pessoas. Mas só agora me dei conta do quão verdadeira essa frase soa para a minha própria vida.
Não precisa de muito. Ande pela rua de qualquer local que não seja o seu bairro. Experimente, por exemplo, lugares piores, não melhores (quanto a quesitos financeiros). Repare no distinto.

Aprecio passear pelo centro de São Paulo. Certo dia encontrava-me no Largo do Paissandú (dia 20 de Novembro - o dia da Consciência Negra), com minha câmera fotográfica querida e meus bons amigos (todos belos). O sol deixava minha pele mais vermelha (além de quente) e o vento pouco se interessava em refrescar-me. Atentei que enquanto caminhávamos junto a marcha, pessoas recostavam-se com suas caixas de papelão e tentavam até dormir.
No chão. Juntos; mas no chão. Um cão de guarda, alerta, nos olhava. Os quatro garis que ali limpavam, sorriam e conversavam sobre cotidianidades. Sentei-me no chão, à sombra. Cheiro de mijo (poderia optar por palavras mais acadêmicas, mas senti algo de real nessa) e de concreto.
Ainda não sei exatamente o que me ocorreu, mas passado alguns minutos de pura observação, meu mundo mudou, nesse meu um metro e sessenta de muita imaturidade, algo ao redor, alterou-se. Retratei tudo, com um preto e branco sem igual. As cores não mudariam muito disso mesmo.


Foi então que percebi. Notei que sentir e viver, e tocar, e cheirar (com todos os e's que uma adição pode nos trazer) vale mais do que ler e estudar.
Utilizar-se dos sentidos, para sentir o mundo. Não como imaginamos, ou nos parece ser; mas tal como é.
Saber o que sente, um indigente. Um índio que não terá onde viver. Uma mulher que passa fome. Um desempregado. Um viciado. O padeiro que trata as pessoas mal porque não tem uma vida harmônica nem dentro de casa. A mulher que limpa o chão do prédio que está visitando/que trabalha/que mora. A boliviana imigrante que foi ao hospital na madrugada com seu filho se contorcendo em cólicas e que não entende uma palavra sequer do que o médico diz, mas mesmo assim foi. O motorista do ônibus que vai para o Terminal Parque Dom Pedro. Os homens que moram (repito, moram) no Parque Dom Pedro, com seus fiéis
animais (e únicos amigos).
Quando chegar em casa, depois da viagem diária e rotineira (seja ela composta de trabalho, estudos ou afazeres), reflita. Olhe seu quarto, seus apetrechos. Mas saia de você. Entenda que faz parte, que pertence. Que, sim, "poderia ser você".

Em breve, vai notar que ir à padaria não será mais o mesmo que ontem.
Que viajar até a faculdade/empresa/restaurante, torna-se a nascente de mudanças.
Que enquanto as pessoas de seu bairro, de sua cidade, de seu estado, de seu país não estiverem bem, você vai buscar meios de, pelo menos, não contribuir para piorar.

Há alternativas.
Viaje pela sua rua e descubra o mundo.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Imenso e azul.



Ah, o mar.
Desde pequena sempre senti uma atração incomum por ele. Gosto das ondas, gosto de olhar o horizonte e não ver nada. Sentir o mar (e, para quem gosta de especificidade) com os olhos, com a pele e com os ouvidos (para os mais ousados, com o paladar); é indescritível. O movimento infindável das ondas que apresentam-se ao mesmo tempo íntegras e instáveis. Lá. Algo milimetricamente calculado para ser perfeito.

‎"Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o sul (...) Quando ele e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: 'Me ajuda a olhar!'."
(Eduardo Galeano)

Não posso mentir. Primeiro porque não consigo (ou me descobrem - porque realmente não sei - ou acabo contando). Segundo porque não acho honesto. A questão é: um cruzeiro.
Entrar no navio é... diferente. Cheira a casa nova, móveis novos. Todos os tripulantes (os que trabalham, é claro) sorriem. Têm um broche com o nome do respectivo navio e uma bandeira simpática de sua terra natal. Entregam cartões (é, tempos modernos) que são, ao mesmo tempo, a sua identificação e o seu cartão de crédito. Neles, estão escritos seu nome completo e o número de sua cabine. A mala (que já foi entregue no início da manhã, quando você pegou uma fila de 3 horas [ah, hoje em dia isso não é nada, minha gente!] para preencher papéis [burocracia]) está lá, no local que será seu quarto durante alguns dias. Depois, entram num elevador e pronto, está no andar certo.
Se balança? Se dá enjôo?
Responderia que sim para a primeira pergunta e não para a segunda. É tudo tão leve que não se sente nada. Mas, para quem tem o estômago mais "terreno" existem remédios. Acredite, não é ruim o suficiente para que passe pela sua cabeça de nunca mais entrar em algo que bóia.
É tudo muito bem servido, os trabalhadores são extremamente dedicados e educados. O problema todo não está no que descrevi até agora (nem nas 3 horas de fila, acredite!). Tudo é muito bom, a não ser pelas atividades recreativas desenvolvidas no decorrer da viagem. Não costumo participar. E, para quem não costuma participar, torna-se algo inquietante. Muitas pessoas se divertem, verdade. Não vou entrar em detalhes, para isso, pense em atividades recreativas, é o suficiente.
Vou explicar como passei os dias (que foram primorosos).
O café da manhã. Variedade é a palavra. Sirva-se, sente-se e aproveite a vista fascinante que terá ao seu lado. Não tenha hora para levantar da mesa e muito menos tensão, estresse, desânimo, ou qualquer sentimento que te lembre segunda-feira de manhã. Todos te servem com muita ternura e se esforçam ao máximo para falar a sua língua (algo que geralmente não acontece em outros países, por exemplo).
Lembro que levei comigo um livro, de Lispector. Consegui lê-lo em 5 dias. Sem a menor pressa. Primeiro porque Clarice simplesmente entende (sem mais). Segundo porque era o que fazia enquanto deitava ao sol (não, nunca tive esse hábito, mas fiquei, por conta de conseguir ver o mar).
Faça isso pela manhã; como estudante de medicina me sinto obrigada a dizer aquelas coisas que todos estão mais do que acostumados a ler em revistas e anúncios (além de ouvirem de seus médicos): pegue sol pela manhã, num período em que o sol não está forte o suficiente para provocar nada mais do que uma pele bronzeada em você.
Almoce. Nesses navios sempre existem diversos restaurantes e comida o suficiente. Há frutas para a sobremesa, são saborosas, coloridas e cheirosas. Já falei que os lugares têm cheiro de casa nova?


Depois, passava meu tempo lendo, novamente. Em meu quarto, havia varanda. Éramos Clarice, a varanda, o mar e eu. A tarde inteira. O som do mar preenche. Sinta-se parte dele (porque você o é). A brisa que sopra é sua, toca sua pele, mesmo que esteja de roupa. Como se em cada espaço de vida lá estivesse ela. E tem cheiro! Cheiro de imenso, de perpétuo e de manhã.
A noite vem o jantar. Sempre terá uma roupa para a ocasião que deve usar (esporte fino, geralmente). Não usei em todos os dias. Não é regra (e, cá entre nós, quebrá-las de vez em quando não faz mal a ninguém). Você será atendido por garçons de diversas nacionalidades. Mas tenho que confessar que, nessa viagem, fiquei curiosa para conhecer um país, em especial. A Indonésia. Como são simpáticos e prestativos os indonésios. Eles falaram inglês, de uma forma quase que compreensiva e linda! Tão singular, tão simples e tão sincera que chegou e me deixar embaraçada. Seus olhos são penetrantes e querem dizer algo, traduza-os e aproveite.


No primeiro dia, fará um treinamento. Fique calmo. Vai somente colocar o salva-vidas e subir as escadas. Treinamento de rotina. Todos, sem exceção, precisam fazer. Não dura mais do que 15 minutos e é algo necessário. Depois disso. A partida.

O navio soa. Alto, todos no porto dão adeus. Um espetáculo a parte (foto de Santos, São Paulo, a partida, aqui em cima). Mesmo que não esteja partindo para sempre, dê adeus também, acene. Acaba por se sentir parte. Em breve estará de volta, com um pouco mais do mar, em você.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Viajando para "dentro"


"O todo sem a parte não é todo;
A parte sem o todo, não é parte;
mas se a parte o faz todo, sendo parte,
não se diga que é parte, sendo todo"
(Gregório de Matos)


Hoje a cabeça está cheia, entumecida, balonada, ou seja lá qual for o adjetivo.

Aquele dia pesado mentalmente. Entendem?

Escrevo (de forma amadora, é claro) sobre viagens. Mas talvez eu nunca tenha me dado à esse luxo (ou será falta de ousadia mesmo?), o de escrever sobre a viagem interna que todos nós realizamos diariamente (consciente ou inconscientemente).

Pois hoje decidi sentar aqui e dizer umas boas verdades. Acredito que mais para mim do que para vocês, coitados. Mas sempre tive essa necessidade, de expor os fatos, de forma que eles tendam a se organizar depois disso, criar uma certa ordem (ou desordem pseudo-organizada) dentro de mim.

Mas então, quais são os fatos?

Vejo e sinto tantas pessoas ao meu redor. O dia-a-dia me faz isso, conviver. Viver e ver o quão diverso é o mundo e as diferentes formas na qual uma mente pode se apresentar às outras. Porém, em minhas viagens, notei que ao mesmo tempo que parecemos ser muito diferentes, somos extremamente semelhantes, embora não percebamos isso.
A percepção do mundo ao redor é uma difícil característica de ser encontrada hoje em dia. Percebermos que não estamos sozinhos (de fato), que vivemos em uma grande comunidade denominada Terra, que nossos prazeres podem sim serem atingidos (sem que, para isso, tantos outros prazeres alheios sejam deixados de lado). Que muito antes de existir o eu, existe o nós.

E então, eu olho para o mundo e penso: "?"

Quer dizer então que a grande maioria não tem o sentir-se-parte-de?
Brasileiros falando mal de brasileiros, brigas de estados. Uns achando-se pais do filho pródigo, enquanto outros são rebaixados à nada. Pessoas que trabalham, muitas vezes mais do que todos juntos, faça chuva ou faça sol, sendo minimizadas. "Ah, mas o povo brasileiro é assim mesmo, não gosta de trabalhar." Quem diz isso ao certo não pega ônibus às 07h da manhã ou às 18h da tarde. Eles geralmente estão vazios, com alguns poucos pé-rapados que não gostam de trabalhar, passeando pela cidade, à toa.

Isso, é claro, sem nem citar o problema dos negros e das mulheres. (é... problema, gente - preconceito, há)
Ainda existe esse tipo de pensamento.
Temos inclusive grupos que visam rebaixar/eliminar Chineses, Coreanos, Índios, Indianos, homossexuais. São poucos? Eu pensava que eram, mas não são.

Já repararam como pessoas gostam de colocar a culpa umas nas outras?
A culpa é do governo, do vizinho, do cachorro do vizinho (desses eu tenho dó), do padeiro, do jornaleiro, do governo (eu já disse isso?)... ah sim, e da sociedade (essa palavra também é aplicada com frequência).
Troquemos então a palavra culpa por responsabilidade.

Pois se o planeta é um bem público, façamos o favor de nos sentir parte dele. De tomarmos a responsabilidade dos fatos. Aqui não existe mais o seu problema e o meu problema, mas sim o nosso problema.

E aqueles que têm mais (leia-se: dinheiro) e acham-se no direito de, de fato, sentirem-se melhor que o resto dos 90% do mundo que não têm (maioria, isso mesmo)? Como diria Cazuza "vamos pedir piedade, senhor piedade... pra essa gente careta e covarde".

A África é simplesmente inexistente no cenário global. (e esse parágrafo, mesmo sendo o menor, é o mais profundo e real)

-
Hoje, pela primeira vez, tive vontade de sair daqui. Daqui onde? Sei lá, de mim, pode ser?
Será que é porque eu já viajei e me joguei sobre novas experiências e culturas? Nasci assim? (com certeza não)
Fiquei em crise. Por me sentir parte de um sistema todo falido. Fadado ao fracasso e à tudo isso que assistimos na televisão (outro grande erro, diga-se de passagem) todos os dias. Não faço apologia ao capitalismo, comunismo, anarquismo ou socialismo. Também não faço à religiões. Mas há sim o repúdio. Não a essas criações, mas sim a falta de senso crítico com que nos jogamos, todos.

Viajar para "dentro", ou para fora? Não me decidi direito quanto ao título ainda. Ao mesmo tempo que viajar para a cidade vizinha pode ser (e é, extremamente) construtivo, viajar para nós mesmos e realizar a tão falada (e sucatada) auto-reflexão é engrandecedor.
Tomar atitudes, é mais ainda.


Eu não faço o tipo que costuma escrever sobre assuntos não felizes, muito menos o tipo de 'vamos fazer um planeta melhor', mas consciência do mundo não saiu de moda, ainda.

A esperança, sempre permanece. Fazer a nossa parte, sempre.

"Amanhã, vai ser outro dia... amanhã, vai ser outro dia."
(Chico, meu querido)



sábado, 12 de fevereiro de 2011

Papéis, Restaurantes e Coimbra.

Eu diria que algo essencial para o ser humano viver é alimentação.
A alimentação diz muito sobre o seu povo, sobre a História, sobre os costumes.

Quando for à Coimbra, em Portugal, não esqueça de sair para jantar. Não só uma noite, saia mais. Suba e desça as vielas (que são muitas, como a ao lado) em busca de um local típico e gostoso para se alimentar. Em minhas andanças, tive o prazer de conhecer um restaurante chamado Zé Manel dos Ossos. Localizado em uma ruela pequena e que tinha o chão de pedra (como a grande maioria das ruas de lá). Confesso que senti-me no século XVIII/XIX, com o vento vindo não sei de onde, com a lua enorme e festiva no céu (que, no inverno, costuma estar desprovido de nuvens) e com algumas poucas pessoas andando pela noite fria. Costuma ser praticamente deserto. São poucos os que saem pela noite, lá a cidade não costuma ser movimentada como é por aqui.

A noite de Coimbra me lembrou as noites que fui ao Centro de São Paulo, próximo ao Museu Padre Anchieta, entregar lanches aos desabrigados que dormiam ali na região (aqui ao lado, linda e maravilhosa como só ela saber ser). Eu podia ter o deleite de passear pelo Centro, com aquele (dêem ênfase) ar da noite, sem aquela (dêem ênfase 2) agitação, sem aquela (adivinhem? Ênfase) quantidade incomum de pessoas, todas elas com um destino diferente, com um emprego - ou não - diferente. Tudo é mágico, único. O ar é diferente, chega a ser diferente o próprio ato inconsciente (que torna-se consciente) de respirar. Cheiro de vida adormecida, de vida esperando um novo dia e uma nova movimentação chegar às ruas do badalado Centro. O que esperar? Não se sabe, todo dia é uma novidade por lá. Talvez aí esteja a magia.

Entrei no restaurante. Com certeza não tinha a melhor aparência do mundo. Um cubículo, de alguns metros quadrados, com cerca de cinco mesas daquelas em que sentam no máximo quatro pessoas, um balcão, a churrasqueira, dois cozinheiros portugueses (sem bigodes) e o dono.
Ah sim, o dono. Esse merece uma descrição.

Aparenta estar em sua quinta década de vida, é 'forte' (leia-se um pouco acima do peso), bigode característico, cabelos curtos e pretos, pele clara e avermelhada, uma camisa que provavelmente já havia sido usada mais de uma vez naquela semana e com um pano pendurado em seu ombro (era com ele que o senhor limpava a mesa e o suor de seu rosto - não, eles não devem ter vigilância sanitária). Ele não costuma dar muitos sorrisos e é bem rápido (leia-se curto e grosso) em gerenciar o restaurante. Disse para nós "Ora, pois se tem algo que não sei responder, é isso" quando perguntamos sobre o tempo de espera para podermos sentar. O restaurante estava lotado.
Aprendi algo importante com viagens: não se deixe levar pelas aparências.
As paredes do restaurante estavam repletas de papéis, guardanapos e diversos derivados de árvores desmatadas. Eles apresentavam escrituras de múltiplas pessoas, de todas as idades e nacionalidades. Gostam de deixar lá seus recados. Algo interessante, mas eu diria que nada higiênico. Há quanto tempo estavam por lá? Ali um biólogo com interesse em ácaros com certeza faria a festa.
Aproximei-me dos papéis, comecei a lê-los, calmamente. Portugueses, brasileiros, americanos, ingleses, jamaicanos e japoneses já haviam deixado lá suas assinaturas (aqui embaixo temos o conjunto de ácaros).


"Pelo menos a comida deve ser boa", foi o que pensei. Definitivamente, era.
Comi cada parte de minha refeição, sem titubear um segundo. Saborosa, completa. Lembro-me do cheiro da comida (que por um acaso era arroz de frango - algo como um risoto misturado à um caldo generoso). O ambiente que, ao mesmo tempo não me agradou, junto à uma comida que de fato ficou marcada como uma das melhores refeições já feitas. Não é a toa que todas aquelas pessoas escreveram em guardanapos para deixar ali.
Esse restaurante não é o único a ter esse hábito. O Chez Lapin, na Cidade do Porto, deixava que os clientes colocassem as mensagens na própria parede, caso quisessem. Algo como pichações. Magnificamente anti-higiênico.

Costumes, hábitos, História, viagem. Para ser um bom viajante, acredito ser necessário saber participar de tudo, sem concepções pré-estabelecidas em mente. Faz muito bem para o seu corpo e para o prato em que você vai se satisfazer, numa noite fria de Portugal.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Lisboa, primeiras impressões.

Se, algum dia, um de vocês for à Lisboa em meados de Dezembro e/ou Janeiro, lembrem-se: levem guarda-chuva.
Chove, ou melhor, peneira (uso esse verbo porque li em Memórias Póstumas, de nosso querido Machado, dia desses - nem preciso mencionar que achei estupendo). Pouco e de repente, mas praticamente o dia inteiro. E, da mesma forma como a chuva chegou, ela se vai. De repente.
Gosto do clima daqui. As pessoas andam nas ruas, todas com roupas de inverno. Muitos fumam. Não gosto que fumem, eu mesma nunca fumei. Mas é engraçado como fumar me lembra inverno.
Enquanto eu estava dentro do carro (aluguem um carro e um GPS. Ajudam muito, mesmo você não sendo o melhor motorista do mundo), ele estava com os vidros embaçados, por conta da chuva, o calor humano tem esse dom.
Avistei um homem. Ele fumava. Na chuva (é claro, chuva). Estava ventando, além do frio que fazia. Percebi que um vício pode ser sustentado em qualquer circunstância (porque decididamente não acredito que fumar acompanhado de vento e chuva seja fácil).

Sem mais, por enquanto.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

(montando um parênteses)

E-mail, uma forma nova de firmar uma coisa já muito antiga... a carta.

"Lembra que te falei do medo da rotina? Percebi que não existe rotina conosco. Cada dia é como é. Nenhum é igual ao outro, nenhuma conversa é igual a outra. Eu amo isso em nós. Essa mudança que precisamos ter. Essa necessidade de mudar tudo, desde os móveis da casa até o mundo. Não gostamos de coisas sempre iguais, sempre monótonas, sempre em seus lugares, 'acomodadas'. Gostamos mesmo é de agitação, de novidade, de um amor que nos tire o fôlego, chorar quando necessário, rir muitas e muitas vezes, conversar durante dias e não terminar o assunto... amar, amar, amar e amar.
Temos um perfil muito igual, muito harmonico, em sintonia.

O fato é... eu só existo com você ao meu lado."

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A terra e a Terra.


Esses dias, conversando com a pessoa mais fundamental de minha vida, falamos sobre os índios.
Sempre os achei de uma 'integridade com o todo' de dar inveja. Ela comentou comigo sobre o Estatuto do Índio. Logo após nossa conversa, lembrei de um passeio que fiz quando cursava o ensino fundamental; fomos para algum parque indígena.
Eu era tão nova que não me lembro qual era o nome do local.
Lembro-me com uma exatidão incrível o cheiro da terra de lá. Fiz questão de colocar as mãos nela, deixa-la passar entre meus dedos miúdos de criança, aproximei de meu nariz. Cheirava diferente, nunca mais encontrei qualquer outro odor que se aproximasse daquele. Cheiro de terra molhada misturado à praia no fim de tarde. Cheiro de vida.
Também consigo lembrar das flechas (que muito me chamaram a atenção). Estavam sobre uma mesa feita por eles, talhada. Era toda em relevo, tinha um tatu. Lembro de ter passado as mãos lá também, parecia que eu precisava tocar para sentir, de fato, o que eles queriam me passar.
Fiquei o dia inteiro com essa constante em minha mente "eles fizeram uma mesa, com as próprias mãos!".
Grande parte de todos eles estava incrustada naquela madeira, não tenho dúvida. Fiquei olhando a mesa durante muito tempo enquanto meus colegas pegavam as flechas. Um menininho da tribo se aproximou de mim e disse algo que até hoje eu não descobri. Deve ter sido algo entregue e verdadeiro.
Só parei, assustada... e fiquei olhando-o. Ele fez o mesmo. Analisei e inspecionei seus cabelos. Vi que eram castanhos e não pretos, como via nas figuras dos livros. Foi a primeira vez em que percebi como o contato é essencial. Olhei seus olhos, como eram redondos! A íris era da cor da jabuticaba que comi mais tarde na casa de minha avó (inclusive me lembrei dele ao comê-las). A pele era da cor da madeira da mesa-tatu-talhada. Um marrom bonito, marrom-cor-de-vida.
O contato não durou mais do que minutos, mas foi o suficiente para eu perceber como são bonitos e inteiros, os índios. Hoje sei que isso só é possível se enxergarmos o outro. Olhar por fora, mas ver por dentro.
Não sei se foi a pureza da infância que me fez enxergar, mas lembro-me dele tão bem que praticamente posso vê-lo aqui. Senti que ele falava pelos olhos; grandes, molhados, sinceros e muito íntegros.

Fiz questão de ir ao Google (meu companheiro de buscas) para procurar qual era a tribo que fui visitar com meus 11 anos de muita experiência de vida. Mesmo com todo meu empenho e a boa vontade do meu amigo, não encontrei o parque que tanto queria mostrar à vocês.

Algo que eu esperava encontrar em minha visita rápida à essa tribo, eram penas. Sim, penas. O que mais uma criança brasileira pensaria sobre um índio? (envergonho-me desse fato até hoje)
Levei um susto ao ver que não existiam tantas penas assim. Mas existia beiju. Beiju (com a entonação na última letra), para aqueles que não o conhecem, é a nossa tapioca original.
É feito com mandioca ralada, tornando-se uma massa fina. (nossa querida índia está fazendo-o aqui, na foto ao lado)
Não senti gosto de comida. Não há gosto de comida, nem de mandioca. Tem gosto de fumaça, isso é verdade. Ele é cozinhado sob um fogo intenso e, quando experimentei, tinham-no feito dentro de uma cabana fechada, o que fez com que o gosto de fumaça fosse substancialmente incrementado. Mas é um alimento que mostra a natureza exatamente como é, sem adicionais.
Os portugueses "adaptaram" (modo bondoso de dizer) o beiju dos índios... e os africanos ajudaram. Eis que hoje temos a tão famosa tapioca. Ela é um beiju à la afro-portugueses. Com açúcar e côco, na maioria das vezes.

Ao final, sentei-me com minha sala para assistir uma celebração deles. Disseram-me que ela era realizada todos os dias, agradecendo ao sol por ter nascido novamente. Até hoje lembro-me da entrega constante de todos eles à natureza. Sábios, muito sábios. Agradecer à presença do sol? Aqui na cidade ninguém tem tempo para isso não, meus queridos índios. As pessoas estão muito mais preocupadas com o trânsito que pegarão para ir ao trabalho na segunda-feira. Lembro-me que pensei, "nossa, que alívio deve ser para eles quando o sol nasce, eles não têm lâmpadas aqui!". (sim, riam, é cômico)
Gosto muito de lembrar dos pés deles batendo no chão enquanto dançavam e tocavam seus instrumentos, naquele dia ensolarado. A poeira levantava em conjunto. Um círculo de poeira se fez no meio da roda, então passei a confundir índios e terra. O que os distinguia no meio da cortina de terra era o vermelho das formas irregulares pintadas sob seus peitos, braços e pernas. Eram um, a natureza e eles.
Ouvi muito bem o som que vinha de suas cordas vocais. Não era como nossa música, como o vocal que temos hoje em uma banda. Aquela música não pertence a eles também. É natureza, não música. Ou será que a natureza é também música?


domingo, 1 de agosto de 2010

Louvre e o muçulmano.

Hoje sentei na frente do computador sem saber o que escrever.
Mas a vontade eu tinha.
Passei mais de um mês sem postar algo por aqui em meu querido blog.
Às vezes fico pensando no motivo pelo qual criei isso. Porque sinceramente eu não acredito que as pessoas passem por aqui com grande frequência.
Acho que criei pelo simples fato de gostar de escrever, mesmo que de forma amadora.
E eis que hoje foi a primeira vez que entrei sem pensar em nenhuma viagem que eu tenha feito. Não consegui lembrar, fiquei olhando fotos, pensando em algo produtivo e diferente.
-
Então comecei a lembrar do cheiro que tem o museu do Louvre, em Paris. Ele cheira a antiguidade, ao mesmo tempo em que cheira àquele móvel de madeira novo. Engraçado. Os cheiros se misturam e sempre me lembram algo que não seja lá muito concreto. As pessoas costumam chamar a isto de sinestesia.
Mas voltando ao assunto, o que gosto muito do museu é a sua diversidade.
Quando fui, encontrei um muçulmano, de turbante e tudo (digníssimo) vendo a Mona Lisa. Ela sorria para ele, com aquele pseudo-sorriso que só ela sabe ter. Ele olhava, talvez pensando "é isso que os ocidentais tanto falam?". Porque eu não vi nenhuma expressão querendo aparecer nele.
Ele simplesmente olhava, como se ali estivesse uma parede branca. Ficou parado uns poucos segundos. Eu só o vi de relance, estava bem cheio. Mas de toda forma, foi o que me pareceu. Indiferença. Achei estranho, não havia ninguém ao seu lado (muçulmanos raramente viajam e, quando o fazem, é sempre com muita gente).
Senti uma enorme vontade de para-lo (não no sentido literal, mas no sentido de tira-lo de seus pensamentos), somente para perguntar em alguma língua que ainda não sei, "O que o senhor está pensando? Satisfaça uma curiosa, por favor."
-
Depois disso comecei a pensar, porque às vezes eu tenho esse hábito.
Presenciei algo que pensei que não existisse: o costume dos povos, todos misturados. Em um local que tem por finalidade guardar monumentos/pinturas/roupas/artefatos de nações e civilizações. Lá, vão pessoas; todas elas bem curiosas de ver não-sei-o-quê. Sentam-se, ficam olhando, pensando; fazendo cada um de seus neurônios elaborarem ou, ao menos, assimilarem um pouco do mundo. Mas tudo é bem mais complexo do que somente olhar e pensar. Ali estão marcas, estão partes de pessoas. Marcas de épocas... e sofrimento, e alegria, e criatividade, e expressão. (sim, com todos esses E's com vírgula, bem no sentido de somar, de agregar)
De repente, um muçulmano que reza cinco vezes ao dia virado para Meca, que não aceita que sua mulher use outra coisa na rua senão uma burca, fica tête-à-tête com Mona Lisa. Ela, que nem nós, Ocidentais, conseguimos compreender. Sabemos como é misterioso o porquê de Mona Lisa, o motivo. Muitas histórias giram ao redor daquele pseudo-sorriso. O muçulmano então, coitado.
-
O choque de culturas, entendem? A mistura entre elas. Isso tudo me deixou maravilhada!
Ele já deve ter ouvido falar, em algum momento. Deve ter visto em alguma foto. Devem ter dito a ele "olha, essa é a maior obra do mundo!". Ele, que não aceita que seu Deus apareça com o rosto em obras de arte, que não vive sem seu Alcorão, quem não consegue cumprimentar alguém sem dizer Salaam Aleikum.
"Ele deve ter dinheiro..." - foi o que pensei.
Muçulmanos têm muito dinheiro. Não todos, mas os que viajam têm. Vi vários, andando juntos. Muitos inclusive de mãos dadas (entre eles não há preconceitos, a cultura não implantou isso em seus cotidianos, amizades e relacionamentos - pelo menos não esse tipo de preconceito, se é que vocês me entendem). Com os bigodes, as barbas. As mulheres, de burca. Detalhe: todas ornadas de Victor Hugo e Armani.
Mas o fato é: ele se deixou levar por uma cultura que não é a dele. Deixou-se levar e estava lá, entre as pessoas. Pode ter sido por curiosidade, isso é verdade. Pode ter sido por um impulso, por um momento. Mas, de uma forma ou de outra, ele se encontrou com o lado desconhecido. Ele permitiu-se encontrar com o desconhecido.
Não que isso tenha mudado a vida dele, mas o mundo com certeza ficou um pouco mais tolerante. Da mesma forma que tenho minhas dúvidas... será que alguém, católico-apostólico-romano-com-tudo-dentro iria à Meca?
Vale a pena misturar, vale a pena permitir que um pouco do outro entre em nossas cabeças. Não é tão difícil, é só deixar.
Viajar é muito construtivo, eu já disse isso?

domingo, 20 de junho de 2010

I want to be a part of this.


Vamos fingir que você acaba de chegar naquela cidade da música que todos estão cansados de ouvir naqueles cd's antigos. Aquela cidade onde os melhores cantores do século viveram, comeram, morreram. Aquela cidade que Frank Sinatra e Gene Kelly dançaram e cantaram no musical "On the Town" (tá, é esplêndido, não é?).
New York city.
Tive o imenso prazer de estar por lá por um tempo. Um país odiado por muitos, amado por tantos outros. Roubam muito, mentem muito. Mas amam muito, acreditam muito. No fim das contas, como qualquer outro país, inclusive o nosso, meus queridos.

-----------------
Desça do avião, em primeiro lugar. Ah, eles colocam como música de fundo o tema da cidade, cantado por Frank Sinatra, é claro.
Assim que você chegar, preste atenção no sotaque deles. Como falam rápido! Também querem tudo rápido, o passaporte (não diga bomba, em momento algum!), as malas, as identidades. Todos me lembram muito os paulistanos. Apressados, fazendo de um dia 72 horas.
Não esqueça de pegar um táxi. Lá eles são todos muito baratos. Os taxistas norte-americanos não são tão educados quanto os franceses, mas têm simpatia de sobra. Não peça ajuda com as malas, porque o máximo que eles vão fazer é colocá-las na calçada para depois entrar no carro e sair correndo. Não fiquem chateados. Não é falta de educação, é pressa mesmo.
Vá ao hotel, ah! e de preferência pegue um no centro mesmo, lá você fará tudo a pé ou, no máximo, de metrô.
Antes de mais nada, pegue um mapa da cidade. Você verá que as ruas são todas enumeradas. Na horizontal e na vertical (eles são metódicos, é claro). É bem mais fácil de se achar, eu garanto. Depois que voltar para São Paulo vai ficar se perguntando porque o mundo inteiro não poderia ter ruas enumeradas, acredite.
Nunca me esqueço do primeiro dia que passei lá. Era 4 de Julho (vamos lá, façam um esforço e vocês vão se lembrar do que essa data significa para todos eles). Muitas bandeiras norte-americanas para tudo quanto é lado. Nos carros, nas janelas e até mesmo nos chinelos.
Naquele dia vi um show de fogos de artifício. Na verdade, não vi. Não deu muito certo, parece que queimaram na hora errada e não soltaram. Mas tudo bem, valeu a pena pela lua cheia que estava naquele dia (essa aqui embaixo).
Quando for falar com um cidadão que mora nos estados unidos, olhe em seus olhos. Engraçado, parecem muito sinceros. São simpáticos também, sempre ajudam quando necessário. Mas não pense que você vai conversar com eles mais do que 10 minutos. Eles não dão esse tipo de abertura. Parecem ter puxado isso dos seus queridos ingleses.
-
No centro, se eu não me engano na Lexington Avenue, há uma livraria. Enorme. Linda. É da
rede Barnes & Noble (essa na foto, aqui do lado). Muitos livros, cd's, dvd's. E sabe qual é o melhor? Tudo ao som de Blues. Eles deixam tocando no fundo da loja.
Lá existem livros de autores renomados... (tais como Oscar Wilde) por nada mais, nada menos, do que US$9,99 dólares. Não tem como não comprar! Confesso que tive que me controlar.
Ah, quando entrar, repare no cheiro da loja. Cheira à livros. Daqueles que chegam pelo correio e quando você abre a caixa te invadem por todos os lados.
Depois, ao lado da Barnes & Noble há a Starbucks. Tomei café, capuccino e todas as outras delícias de lá. Não deixe de ir! É aconchegante, lembra aqueles filmes antigos (os branco e preto mesmo). Só leve uma boa companhia, para que o assunto não tenha fim e que venha acompanhado de muita cafeína.
Não deixe de ir ao Central Park. Ele é bem central mesmo, faz jus ao nome. No meio daquele concreto você avistará um ninho verde. Entre nesse ninho. Deite na grama e aproveite para ler aquele Oscar Wilde que você comprou por US$ 9,99. Aliás, para quem não sabe, lá é o país do consumismo (e essa eu duvido que tenha alguém que não saiba). Mas aproveite para comprar o que interessa. Vá as lojas, mas não esqueça das livrarias (tá, parei!).
.
O museu! Como esquecer do museu? The Metropolitan. Ah, não deixe de ir, por favor! É enorme, aglomera todas as épocas da humanidade, com os quadros e os vasos (sim, vasos!) antigos que o mundo decidiu guardar. Todos lá, esperando pelos olhos curiosos e insaciáveis dos apreciadores de história.
Depois de todo esse mundo de livros e músicas (e café também), vá as compras! Leve um dinheiro a mais, compre roupas que vão durar o resto de sua vida, compre calças que te vistam muito bem. As roupas de lá são para isso mesmo, para adotar, comprar e ficar muitos anos com você. São ótimas. Tudo bem que, para mim, com todo o meu tamanho (para quem não sabe, sou bem baixa!), algumas roupas (mesmo as XXS) ficam grandes, mas nada que uma boa costura não resolva, não é?
.
Sabe qual é a maior constante nas ruas de New York city? Sirenes. Como gostam de sirenes! Ouvi todos os dias, todos os instantes. Com os bombeiros, com os policiais. Acho que qualquer gato no telhado é motivo de ligar as tais das sirenes. Mas, como boa paulistana, estou acostumada.
Ao sair de New York, saia feliz. Um exemplo de um lugar certo para se viver, para se morar. Eles acertaram, mesmo sendo metódicos e mesmo deixando o avião destruir aquelas torres, em tudo. Respire fundo e diga "até logo, see you soon."

domingo, 4 de abril de 2010

Ahhh a natureza!


Hoje cheguei à uma conclusão interessante. Tudo que eu escrevi até agora só dizia sobre cidades e afins. Como assim? Como eu ainda não homenagiei a mais singela e linda de todas as belezas do mundo? Isso é praticamente um crime! Mas não seja por isso, agora vou me redimir.
---------------------------------
Pensei durante um bom tempo sobre o que iria dizer... foi então que me lembrei de uma viagem que fiz para Iporanga (São Paulo), para o Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira, o PETAR. Ele foi criado em 1958 e abriga mais de 300 cavernas, todas cadastradas pela SBE (Sociedade Brasileira de Espeleologia). A viagem foi, no mínimo, espirituosa. É engraçado como podemos crescer como seres humanos pelo simples fato de entrarmos em contato com a natureza, senti-la... e principalmente, respeita-la.
O Parque é cheio de trilhas, cheio de Mata Atlântica... portanto, leve tênis (que possam ser jogados no lixo, se necessário),uma
garrafa de água e muita disposição. Você vai fazer caminhadas de horas, vai encontrar animais e terá a oportunidade (eu diria que até certo ponto, única) de entrar e visitar muitas cavernas. Vai também acordar cedo (normalmente 5 horas da manhã, para aproveitar bem o dia, antes de anoitecer), tomar um café da manhã rápido em uma das pousadas que existem por lá e acompanhar o guia.
Os guias são excelentes. Sempre contam a história do Parque e das cavernas antes de começarem a longa caminhada. Ah, se chover, respire o mais fundo que seus dois pulmões aguentarem. É o melhor cheiro do mundo! É, enfim, a natureza te mostrando que ela existe e, é claro, te dando as boas vindas para um dia bem molhado.
Por falar em cheiro, acho que o que eu mais percebi e apreciei durante a viagem foram os diversos cheiros. Descobri que a natureza não é única, singular. Ela é plural! Extremamente plural. Veja as cores também! Não se esqueça de olhar as cores, todas elas, em todos os animais, flores, cogumelos (não os coma, existem efeitos indesejáveis, como vocês já devem ter ouvido falar)... mas quando entrar nas cavernas, esqueça das cores. Não há cores. É então que você descobre que não é necessária a presença de cores para que a natureza se mostre. Um pouco de luz e curiosidade... e o ambiente está montado.
Perceba todos os espeleotemas das cavernas. Espeleotemas, para quem não sabe, são todas as projeções rochosas que estão
dentro das cavernas. Os mais conhecidos são as Estalactites (projeções compostas pela corrosão das rochas e deposição de CO2 associado à água, elas pendem do teto em direção ao chão, verticalmente) e as Estalagmites (compostas por mineirais depositados no chão através de gotas que se sedimentam, imagine só o tempo que isso deve demorar para formar!!!). Além desses dois espeleotemas, há ainda as chamadas cortinas, espirocones e tantos outros nomes interessantes e incríveis.
Depois que você apreciar tudo isso (com o seu "capacete especial", com uma lanterna de cabeça, para iluminar), o guia vai fazer a coisa mais interessante que eu já vi. Ele pede para que todos apaguem os seus capacetes e que se sentem no chão, em silêncio, durante um minuto.
Sente-se sim, mas deixe seus ouvidos atentos e ligados. Nunca senti tanto medo e esplendor ao mesmo tempo em minha vida. É tudo tão quieto e intrigante. Divino, no mínimo. "Deus existe!" - você pensa. Mas depois, as luzes se ascendem... e a sua vida volta ao normal.

segunda-feira, 15 de março de 2010

O Rei Sol e Versailles.



Mais uma vez, França (pois é, eu não me canso!).
Quem já foi mais de uma vez para lá, com certeza deve ter passado por Versailles. Lá, uma cidade pequena com todas as características francesas da Revolução, com seus prédios, suas vielas e seus jardins característicos, você vai encontrar o tão falado Palácio de Versailles.
O rei Sol - estou falando de ninguém menos que Louis XIV - habitou o palácio durante todo seu longo e glorioso reinado (1643-1715), além de seu neto - Louis XVI, o decapitado - e sua mulher - Marie Antoinette, aquela dos brioches. Todos os salões, todos os quartos e todos os jardins parecem ter parado no tempo, assim como a cidade.
Quando você chegar observe bem a cidade. Lembre-se de toda a história que ocorreu por lá, veja as calçadas, as construções, as pessoas. Peça para que o guia turístico lhe mostre os prédios de todas as "preferidas" do rei Sol. Ele costumava dar uma casa para cada uma delas, com tudo do bom e do melhor. E para você, que não sabe o que e quem eram as preferidas do rei, aqui vai uma dica: hoje, são vulgarmente chamadas de amantes.
Depois, peça para o guia passar ao lado de uma grande construção que mais parece um quartel. Ela é enorme e com uma arquitetura extremamente quadrada. Fica ao lado do palácio... e acredite, ela é nada mais nada menos do que a cozinha (sim, cozinha!) do palácio. Era lá que eram preparados os pratos servidos à família real e à toda nobreza.
Fiquei pensando durante muito tempo em como faziam os franceses, no inverno, para que a comida não esfriasse no caminho entre a "cozinha" e o palácio (é hilariante).
-------------------------------------------
Agora você vai entrar no palácio. Não não, não entre ainda! Antes disso, olhe o lado de fora. Quer saber o que mais me chamou atenção? Os portões. São dourados e cheios de símbolos. Preste atenção em todos eles e se a curiosidade te chamar, procure um livro de história e então entenderá cada um desses símbolos. A maioria deles representam a grandiosidade do rei Sol e todos os seus feitos.
Aliás, por falar em grandiosidade, observe a frase que está no alto da parte direita do Palácio "A Toute Le Glorie de France" (À toda Glória da França). Repare na grandiosidade intrínseca que os franceses demonstram em suas obras.
Pegue fones de ouvido na entrada (se você estiver sem o guia turístico, elas serão úteis, uma vez que passam as informações na linguagem que você escolher), junte-se ao seu grupo e siga em frente. Uma coisa eu tenho certeza que irá notar. Ninguém fala lá dentro. O impacto é tão grande e a "energia" tão presente que o silêncio predomina. O chão é sempre de madeira, aliás, esse é o único barulho que se ouve, o pisar dos sapatos na madeira.
Passe por todas as salas, as ante-salas e os quartos. Uma característica não pode, de jeito nenhum, passar desapercebida: o teto. Cada sala tem, em seu teto, a pintura de um dos deuses gregos. Se olhar durante mais que 30 segundos, te garanto que você vai se sentir no céu. Ah, repare também no cheiro do palácio. Tem cheiro de casa de campo. Daquelas que você vai passar o inverno com os amigos ou com a família.
Tudo brilha, tudo tem em si incrustado cada minuto da vida da França.
O quarto de Louis XIV (aqui do lado, na foto) encontra-se lá, grandioso como ele. No teto, você verá Apolo e suas chamas em uma biga - Le Char d' Appollon - pintado por Charles de la Fosse especialmente para ele. Ele era tão político que fazia questão de receber alguns dos nobres mais famosos todos os dias pelas manhãs. Todos ficavam no quarto, aguardando o despertar e seu médico pessoal verificar-lhe o estado geral. Era assim... todos os dias.
Repare no quadro encontrado no quarto de Marie Antoinette. Veja o seu olhar, o olhar de seus filhos. Todos loirinhos e pequenos. Ela, com seu rosto de rainha e ao mesmo tempo transmitindo uma simplicidade sem igual.
Quando entrar na sala dos espelhos (conhecida por ser a maior sala de festas e a única que possuía tantos espelhos naquela época onde o vidro e os espelhos eram de extremo preço alto), o último conselho que dou é que repare nos espelhos. Eles são feios e velhos, manchados. Mas não se desanime, eles só estão assim porque os franceses são tão respeitadores de sua história que resolveram não mudar nada dessa sala. Do lado esquerdo vê-se espelhos adornados com ouro, do lado direito, janelas imensas... que levam você a olhar para o jardim imenso de Versailles.
Antes de ir embora, vá aos jardins. Sente-se na grama. Ponha as mãos na grama, bem lentamente. Olhe o céu, as flores e as árvores. Veja os caminhos e os labirintos que ele lhe apresenta. Senti uma vontade enorme de entrar nesses caminhos e me perder por lá para sempre. O jardim é tão colorido e cheio de vida na primavera, tão misterioso e frio no inverno e tão quente e romântico no verão. Cada estação traz o seu encanto, o seu despertar de sentimentos.
Vou contar um segredo... só para vocês.
Antes de dormir, penso em Versailles. Penso principalmente no jardim. Foi um dos melhores lugares que já conheci. Transmite paz... e um sentimento único de que tudo vai ficar bem, independente do que for.