quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A terra e a Terra.


Esses dias, conversando com a pessoa mais fundamental de minha vida, falamos sobre os índios.
Sempre os achei de uma 'integridade com o todo' de dar inveja. Ela comentou comigo sobre o Estatuto do Índio. Logo após nossa conversa, lembrei de um passeio que fiz quando cursava o ensino fundamental; fomos para algum parque indígena.
Eu era tão nova que não me lembro qual era o nome do local.
Lembro-me com uma exatidão incrível o cheiro da terra de lá. Fiz questão de colocar as mãos nela, deixa-la passar entre meus dedos miúdos de criança, aproximei de meu nariz. Cheirava diferente, nunca mais encontrei qualquer outro odor que se aproximasse daquele. Cheiro de terra molhada misturado à praia no fim de tarde. Cheiro de vida.
Também consigo lembrar das flechas (que muito me chamaram a atenção). Estavam sobre uma mesa feita por eles, talhada. Era toda em relevo, tinha um tatu. Lembro de ter passado as mãos lá também, parecia que eu precisava tocar para sentir, de fato, o que eles queriam me passar.
Fiquei o dia inteiro com essa constante em minha mente "eles fizeram uma mesa, com as próprias mãos!".
Grande parte de todos eles estava incrustada naquela madeira, não tenho dúvida. Fiquei olhando a mesa durante muito tempo enquanto meus colegas pegavam as flechas. Um menininho da tribo se aproximou de mim e disse algo que até hoje eu não descobri. Deve ter sido algo entregue e verdadeiro.
Só parei, assustada... e fiquei olhando-o. Ele fez o mesmo. Analisei e inspecionei seus cabelos. Vi que eram castanhos e não pretos, como via nas figuras dos livros. Foi a primeira vez em que percebi como o contato é essencial. Olhei seus olhos, como eram redondos! A íris era da cor da jabuticaba que comi mais tarde na casa de minha avó (inclusive me lembrei dele ao comê-las). A pele era da cor da madeira da mesa-tatu-talhada. Um marrom bonito, marrom-cor-de-vida.
O contato não durou mais do que minutos, mas foi o suficiente para eu perceber como são bonitos e inteiros, os índios. Hoje sei que isso só é possível se enxergarmos o outro. Olhar por fora, mas ver por dentro.
Não sei se foi a pureza da infância que me fez enxergar, mas lembro-me dele tão bem que praticamente posso vê-lo aqui. Senti que ele falava pelos olhos; grandes, molhados, sinceros e muito íntegros.

Fiz questão de ir ao Google (meu companheiro de buscas) para procurar qual era a tribo que fui visitar com meus 11 anos de muita experiência de vida. Mesmo com todo meu empenho e a boa vontade do meu amigo, não encontrei o parque que tanto queria mostrar à vocês.

Algo que eu esperava encontrar em minha visita rápida à essa tribo, eram penas. Sim, penas. O que mais uma criança brasileira pensaria sobre um índio? (envergonho-me desse fato até hoje)
Levei um susto ao ver que não existiam tantas penas assim. Mas existia beiju. Beiju (com a entonação na última letra), para aqueles que não o conhecem, é a nossa tapioca original.
É feito com mandioca ralada, tornando-se uma massa fina. (nossa querida índia está fazendo-o aqui, na foto ao lado)
Não senti gosto de comida. Não há gosto de comida, nem de mandioca. Tem gosto de fumaça, isso é verdade. Ele é cozinhado sob um fogo intenso e, quando experimentei, tinham-no feito dentro de uma cabana fechada, o que fez com que o gosto de fumaça fosse substancialmente incrementado. Mas é um alimento que mostra a natureza exatamente como é, sem adicionais.
Os portugueses "adaptaram" (modo bondoso de dizer) o beiju dos índios... e os africanos ajudaram. Eis que hoje temos a tão famosa tapioca. Ela é um beiju à la afro-portugueses. Com açúcar e côco, na maioria das vezes.

Ao final, sentei-me com minha sala para assistir uma celebração deles. Disseram-me que ela era realizada todos os dias, agradecendo ao sol por ter nascido novamente. Até hoje lembro-me da entrega constante de todos eles à natureza. Sábios, muito sábios. Agradecer à presença do sol? Aqui na cidade ninguém tem tempo para isso não, meus queridos índios. As pessoas estão muito mais preocupadas com o trânsito que pegarão para ir ao trabalho na segunda-feira. Lembro-me que pensei, "nossa, que alívio deve ser para eles quando o sol nasce, eles não têm lâmpadas aqui!". (sim, riam, é cômico)
Gosto muito de lembrar dos pés deles batendo no chão enquanto dançavam e tocavam seus instrumentos, naquele dia ensolarado. A poeira levantava em conjunto. Um círculo de poeira se fez no meio da roda, então passei a confundir índios e terra. O que os distinguia no meio da cortina de terra era o vermelho das formas irregulares pintadas sob seus peitos, braços e pernas. Eram um, a natureza e eles.
Ouvi muito bem o som que vinha de suas cordas vocais. Não era como nossa música, como o vocal que temos hoje em uma banda. Aquela música não pertence a eles também. É natureza, não música. Ou será que a natureza é também música?


2 comentários:

  1. Se você quiser, anualmente (ou pretendendo isso), a Rede Emancipa visita uma tribo indígena, num estudo do meio que fazemos no Pico do Jaraguá [lá é estudado geografia, biologia e história].
    Lembrei da famosa carta do Chefe Seattle ao ler tudo que escreveu. Você conhece?

    "(...)Isto sabemos: a Terra não pertence ao homem; o homem pertence à Terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas, como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.
    O que ocorre com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não teceu o tecido da vida: ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo (...)"

    Sou suspeita, você sabe o quanto a Antropologia representa na minha vida, e tive meu primeiro contato com as concepções antropológicas através dos estudos com indígenas. Acho-os lindos, fisicamente mesmo. Amo a história, o contato com a natureza, as lendas, a pureza das relações, a organização tribal e familiar... Tão diversos, tão diferentes. É necessário muita alteridade pra conseguir compreender, e acho que, para o homem moderno, é necessário uma montanha de amor também. Compreender, entrar em contato, sentir: é uma experiência que demanda além de compreensão, amor.

    Por fim, é inegável sua qualidade de escrita e riqueza de detalhes. Lembrei do "Simbolismo" (escola literária), cheio de palavras com intuito de fazer com que o leitor experimentasse das mesmas sensações.

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  2. Maiara Albuquerque6 de dezembro de 2011 05:53

    Lembro-me com uma exatidão incrível o cheiro da terra de lá. Fiz questão de colocar as mãos nela, deixa-la passar entre meus dedos miúdos de criança, aproximei de meu nariz. Cheirava diferente, nunca mais encontrei qualquer outro odor que se aproximasse daquele. Cheiro de terra molhada misturado à praia no fim de tarde. Cheiro de vida.

    vc é detalhista. E ainda possui uma otima memória fotográfica.

    Você realmente domina a escrita, e leva o leitor para dentro do contexto.

    Eu sou suspeita em falar sobre índio.Tenho traços indígenas, tenho familia indígena,rsrsrs. Gosto da cultura, apesar de não ser criada na mesma, eu admiro suas crenças seu modo de encarar e respeitar a natureza.

    Obrigada por esse texto, me fez lembrar de pessoas queridas da minha familia.
    Aquele abraço...

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